Os números mostram que o desemprego diminuiu no Brasil. Segundo o IBGE, a taxa de desocupação chegou a 5,4% no segundo trimestre de 2026, um dos menores patamares da série histórica. Em princípio, seria uma notícia suficiente para produzir algum otimismo. Mais pessoas trabalhando deveriam significar maior consumo, segurança econômica e melhoria das condições de vida.
Entretanto, quando saímos das estatísticas e observamos o cotidiano, encontramos uma realidade mais complexa. O brasileiro está trabalhando, mas o dinheiro continua sem sobrar.
O salário chega e rapidamente é consumido pelas despesas básicas. Supermercado, aluguel, energia elétrica, combustível, medicamentos e mensalidades ocupam parcela cada vez maior da renda. Quando ocorre um imprevisto, muitas famílias recorrem ao cartão de crédito, ao cheque especial ou ao empréstimo pessoal. A dívida, inicialmente utilizada para resolver uma dificuldade passageira, passa a fazer parte do orçamento mensal.
Esse aparente paradoxo possui algumas explicações.
A primeira é que ter emprego não significa, necessariamente, receber um salário suficiente. O mercado de trabalho brasileiro criou novas ocupações, mas parte delas está concentrada em atividades informais, empregos de baixa remuneração e trabalhos sem estabilidade. A pessoa deixa de integrar a estatística do desemprego, porém continua submetida à insegurança econômica.
É possível estar ocupado e, ainda assim, permanecer vulnerável.
A segunda explicação está na inflação. Mesmo quando os índices mostram desaceleração dos preços, isso não significa que os produtos ficaram mais baratos. Significa apenas que passaram a aumentar em ritmo menor. O consumidor não compara a inflação deste mês com a do mês anterior. Compara aquilo que conseguia comprar há alguns anos com o que consegue levar para casa hoje.
A percepção popular, nesse caso, não está errada. O preço que subiu dificilmente retorna ao patamar anterior. Por isso, a redução da inflação nem sempre produz uma sensação imediata de alívio.
A terceira explicação está nos juros. A taxa Selic permanece em nível elevado, encarecendo financiamentos e empréstimos. Juros altos ajudam a controlar a inflação, mas também diminuem o consumo, dificultam investimentos e tornam as dívidas mais pesadas. Para quem possui dinheiro aplicado, os juros podem representar rendimento. Para quem precisa tomar crédito, representam uma barreira.
Essa diferença ajuda a compreender por que a mesma economia pode parecer favorável para alguns e sufocante para outros.
O problema é ainda maior quando as famílias acumulam dívidas antigas. Uma parcela do salário já chega comprometida com prestações, empréstimos consignados e faturas parceladas. A renda existe, mas não está verdadeiramente disponível. Antes mesmo de entrar na conta, já possui destino certo.
Por isso, apenas criar empregos não resolve completamente o problema social. É necessário discutir a qualidade das ocupações, o nível dos salários e o custo de vida. Um país pode apresentar baixo desemprego e, simultaneamente, manter milhões de trabalhadores presos à instabilidade financeira.
Também não se deve atribuir toda a responsabilidade ao comportamento individual. Evidentemente, educação financeira é importante. Planejar gastos, evitar compras impulsivas e compreender o custo dos juros são atitudes necessárias. Entretanto, não existe planejamento doméstico capaz de corrigir, sozinho, salários insuficientes, crédito caro e aumento permanente das despesas essenciais.
É fácil aconselhar uma família a economizar. Difícil é explicar de onde retirar a economia quando quase toda a renda já está comprometida com alimentação, moradia, transporte e saúde.
O crescimento econômico somente produz bem-estar quando chega à vida concreta das pessoas. O Produto Interno Bruto pode crescer, o desemprego pode cair e o mercado financeiro pode reagir positivamente. Mas, para o cidadão comum, a economia será sempre medida por perguntas mais simples: consigo pagar minhas contas? Posso comprar os mesmos produtos? Tenho condições de financiar uma casa? Conseguirei enfrentar uma emergência sem contrair uma nova dívida?
Essas perguntas revelam uma dimensão da economia que os grandes indicadores nem sempre conseguem demonstrar.
O Brasil precisa continuar gerando empregos, mas também necessita aumentar a produtividade, melhorar a renda e criar condições para a redução sustentável dos juros. Precisa, ainda, enfrentar o endividamento das famílias e ampliar o acesso a um crédito menos abusivo. Sem isso, continuaremos comemorando bons números enquanto parte da população permanece incapaz de perceber seus efeitos.
O trabalho continua sendo o principal caminho para a autonomia e a melhoria de vida. Entretanto, quando a remuneração não acompanha o custo das necessidades básicas e os juros consomem parte relevante da renda, trabalhar deixa de ser garantia de tranquilidade.
Os brasileiros estão trabalhando. O desafio agora é fazer com que o resultado desse trabalho também permaneça em suas mãos.
Arthur Bezerra de Souza Junior é advogado, economista e cientista político, doutor em Direito Político e Econômico pelo Mackenzie.
(Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação)







