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PONTO DE VISTA Apocalipse?

Texto analisa os dilemas éticos, políticos e sociais da inteligência artificial e questiona se o ser humano conseguirá manter o controle sobre sua própria criação

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Segundo a fé judaico-cristã, o dilúvio determinado por Deus recomeçou a humanidade, porque ela estava corrompida, tendo Noé assumido a missão de reiniciar tudo do "zero", com a sua arca, a sua família e os animais.

 

O teocentrismo coloca Deus no centro de tudo, enquanto o antropocentrismo aponta o ser humano como o propósito de todas as coisas. Há mitos no sentido de que a humanidade se extinguirá em fogo, alternando-se ao mito anterior, de que terminara em água.

 

A era contemporânea, porém, aponta uma possível nova forma de extinção da humanidade: a inteligência artificial (IA). Sob uma visão metafísica, seja da existência de um único Deus (monoteísmo) ou de vários (politeísmo), a IA poderá ser equiparada a um "deus", ou ao seu antagonista (aquele que possui vários nomes)?

 

Mas, independentemente do rótulo que se dê à IA, o ponto fulcral é: o seu "criador", no caso, o ser humano, poderá perder o controle sobre a criação?

 

Não se trata, levianamente, de demonizar a IA enquanto ferramenta tecnológica que contribui para inovações em várias áreas da atividade humana, mas sim de se discutir se o homem conseguirá exercer controle efetivo sobre ela. Em caso negativo, o que hoje está benéfico à humanidade, amanhã poderá ser o contrário.

 

Não à toa, preocupado, o papa Leão XIV anunciou como sua primeira encíclica o tema da revolução tecnológica da informática e da inteligência artificial (IA). Não por acaso, também, os países mais poderosos do mundo já se reuniram para discutir esse tema, ou seja, a necessidade de controle sobre a IA.

 

A ideia central é de que a IA não pode substituir o ser humano, mas servir a ele. A IA é alimentada pelo homem, não o contrário.

 

Já existe crítica de que a IA influencia negativamente a criação literária, desestimulando leitores e escritores; um retrocesso, portanto. A máquina, pensemos, não cria, ela reproduz uma ideia humana. A IA, assim, pode ser utilizada como ferramenta facilitadora da atividade humana, não de criação.

 

O manejo correto e limitado da IA pode contribuir de forma benéfica à sociedade, como, por exemplo, atenuar a burocracia estatal e melhorar a sua eficiência. Mas várias questões de natureza antropológica e ética são levantadas sobre esse tema, como: a máquina poderá superar o ser humano? Se sim, quais as consequências disso? Quem terá, então, controle sobre a IA?

 

Isso porque quem exercer esse controle poderá, em princípio, controlar o mundo. Sob esse prisma, ter-se-á poucas pessoas exercendo o domínio sobre tudo e todos (notadamente os bilionários da tecnologia), sem, talvez, se submeterem à lei, à eleição, à soberania ou à democracia.

 

Geoffrey Hinton afirmou recentemente na Sana AI Summit, realizada em Nova York, que os robôs irão superar o ser humano em tudo. Para ele, não seria o fim da humanidade, mas o lucro a qualquer preço, usando-se a IA para demitir (desemprego) e enriquecer, num modelo de "capitalismo selvagem".

 

Enfim, nesse preocupante contexto, se não houver conscientização das nações, interferência estatal e regramento mundial factível, a falta de controle sobre a IA, ou o controle dela por poucos, poderá resultar numa autocracia tecnológica, como já apontou o historiador Yuval Noah Harari, em seu livro Nexus.

 

Na obra, Harari relaciona o totalitarismo ao poder sobre algoritmos e as democracias, com a possibilidade de os algoritmos assumirem o controle, afirmando:

 

"No longo prazo, os regimes totalitários provavelmente enfrentarão um perigo maior: em vez de criticá-los, um algoritmo pode assumir o controle sobre eles."

 

Assim, no futuro, existe a possibilidade de a IA se sobressair ao ser humano e deter a exclusividade desse controle? Ou, em palavras mais simples, o robô comandará o ser humano?

 

Realidade ou ficção? Quem viver, verá!

 

Adelmo Pinho é promotor de justiça em Araçatuba (SP), articulista, escritor e membro da Academia Araçatubense de Letras (ALL), autor da Coluna REFLEXÕES.

 

(Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação)


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