Ela acordava pela manhã e se olhava no espelho, fitando as marcas que a longevidade lhe reservara. Gostava, porém, do natural, de ser quem era; por isso, não pintava os cabelos brancos nem usava maquiagem. A fotografia antiga pendurada na parede do quarto era prova inequívoca da efemeridade da juventude.
Sua rotina permanecia a mesma havia anos: levantar-se, arrumar o quarto e preparar o café. O bule, já desgastado pelo tempo, ocupava lugar de destaque sobre a mesa da cozinha, coberta por uma delicada toalha rosa de renda. O pão caseiro, recém-saído do fogão a lenha, seguia a receita da família e completava a refeição matinal.
Era um ritual. Ao primeiro gole do café coado e ao aroma que se espalhava pela casa, vinham-lhe as lembranças. Recordava o marido, falecido havia muitos anos, com quem dividira uma longa vida. O casamento nunca fora perfeito — como nenhum é —, mas a saudade permanecia. Afinal, ninguém é uma ilha.
Os filhos, aos poucos, deixaram o ninho para construir suas próprias histórias. Era o ciclo natural da existência. Filhos pertencem ao mundo, não aos pais. Com eles, aprendera a ser menos egoísta, embora acreditasse que o egoísmo fosse parte da natureza humana.
Na pequena sala, sobre uma mesinha, repousava a Bíblia, apoiada em um suporte de alumínio. Todas as noites, antes de dormir, ela a abria ao acaso, alternando entre o Antigo e o Novo Testamento. Já havia percorrido aquelas páginas inúmeras vezes, mas acreditava que sempre existia uma nova lição a descobrir. O divino, pensava, jamais se esgota.
Depois do café, acomodava-se na cadeira de balanço que pertencera à avó. Feita de madeira avermelhada, com encosto de rede cinza, ocupava um espaço entre a sala e a cozinha. Ali permanecia, balançando suavemente, como quem navegava por um oceano de lembranças. Recordar era outra forma de viver — ou talvez de sobreviver.
Enquanto a cadeira seguia seu movimento lento, suas mãos finas e marcadas pelo tempo teciam, com extremo cuidado, a própria mortalha. Feita de linho, com fios vermelhos e brancos, era confeccionada conforme a tradição de sua família católica, que vestia os mortos com roupas inspiradas nos trajes dos santos.
A morte não lhe causava medo. Compreendia que toda vida é finita, mas acreditava que uma existência bem vivida basta para torná-la completa. Também aprendera que solitude é diferente de solidão. Estar só era encontrar-se consigo mesma, com sua essência e com Deus. O conflito, refletia, estava do lado de fora, alimentado pela maldade e pelo egoísmo humano. Por isso, já não cultivava apego às coisas nem às pessoas.
Naquela manhã, o nascer do sol iluminava a cozinha através da vidraça. Um beija-flor pairava sobre uma petúnia no jardim, sorvendo o néctar com delicadeza, como um apreciador de vinhos diante de uma taça rara. Ela sorriu diante da cena.
— A natureza é divina e singular. Preservá-la é respeitar o Criador e perpetuar a própria humanidade — pensou.
Logo depois, ouviu o canto do galo anunciando o início de um novo dia, preciso como um relógio suíço.
Passado algum tempo, sentiu uma paz diferente. Não era apenas silêncio, mas uma serenidade profunda, que parecia nascer da alma. Teve a impressão de que alguém conhecido estava por perto, embora não visse ninguém.
Foi então que uma intensa luz violeta atravessou a janela e a envolveu completamente.
Leve como uma libélula, percebeu que flutuava. Olhou para baixo e viu a si mesma sentada na cadeira de balanço, imóvel, de olhos fechados e expressão serena.
Na mesa da cozinha, o bule ainda exalava os últimos fios de vapor. Sobre seu colo repousava, enfim concluída, a mortalha que tecera com tanta dedicação.
Adelmo Pinho é promotor de justiça em Araçatuba (SP), articulista, escritor e membro da Academia Araçatubense de Letras (ALL), autor da Coluna REFLEXÕES.
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